As Aventuras de um Herói Suburbano

(Tiago Silva)

Era o início de mais um dia de trabalho. O ônibus, estacionado no terminal rodoviário, esperava a vistoria de rotina após a primeira viagem do dia… Tudo normal, a não ser pela surpresa que estava na próxima poltrona.

Joilson Chagas, friburguense, que perdeu a casa nas fortes chuvas que devastaram grande parte da região serrana do Rio de Janeiro, inspecionava o ônibus que conduzira quando percebeu um pacote enrolado com um papel e um celular. Ao verificar o conteúdo do pacote, mal acreditava no que seus olhos viam. Estava recheado de dinheiro, com uma quantia que ele jamais imaginaria ter em mãos. Que era o suficiente para remediar a perda de seu tão estimado lar. Incrédulo, desceu do carro. “Meu Deus, o que é que eu faço?”, questionava-se. “É tentador”, garante, em depoimento humano, um verdadeiro herói urbano contemporâneo.

Setenta e quatro mil reais…

Momentos como esse certamente nos fazem pensar e por na mesa aquele velho dilema entre certo e errado, bem e mal, céu e inferno. Podemos inventar mil e um motivos que nos convençam a não devolver. Podemos dizer que é um presente divino ou que não fará falta a quem perdeu, já que foi tão descuidado com uma quantia dessa e certamente deve ter muito mais. Enfim, enumerar todos os tipos de desculpas esfarrapadas tomaria todo o espaço deste texto.

Tantos motivos a favor da não devolução, todavia, o único motivo de fato correto, está do outro lado da balança. Uma palavrinha tão linda, na teoria, e tão surrada, esfolada e esquartejada, na prática… HONESTIDADE.

Honestidade, que anda totalmente démodé na nossa política. Honestidade, que está em falta no dia a dia de milhões de pessoas espalhadas por aí. Honestidade, que se ofusca, perde o brilho e quase some de nossas mentes consumistas e acumuladoras.

Joilson foi honesto! Sim! O bem venceu, apesar de todas as tentações, de todas as necessidades que poderiam ser sanadas com essa providencial quantia. Joilson foi HONESTO!

Procurou o dono da quantia, que chorava em desespero no terminal rodoviário, e não, ele não era nenhum milionário que joga 74 mil fora, nem mesmo um anjo que veio presentear o nosso motorista protagonista. O dono do dinheiro era um humilde agricultor que acabara de vender seu caminhão a fim de poder pagar um tratamento de saúde para a sua filha adolescente, que se encontra muito doente.

Além de ser honesto ao devolver o dinheiro, Joilson salvou, de certa forma, a vida da jovem moça. Como vemos em todas as histórias de super heróis nos quadrinhos, cinema e televisão.

Atos de bravura de um homem que, mesmo com as intempéries desta vida dura, soube ser herói!